Pílulas de Língua Portuguesa 6 – Regência Trina Permanente

A presente coluna é obra de exatos 70 dedos — 10 meus e 60 de gentis leitores, que correspondem, como sabem, a 75% do universo (!) dos que me leem.

Reza antiga lenda urbana que a contratação de jornalistas de um conhecido grupo editorial estava diretamente vinculada ao acerto da regência de três verbos: implicar, namorar e preferir.

Esse conto da carochinha, porém, não é mentira de nove modas, que vem a ser aquela que alguém conta de uma só vez. Ela tem prosseguição, como diria Inezita Barroso em uma de suas cantorias.

Assim segue a patranha: um dos candidatos errou as três questões. Foi contratado, porém! Como!? Ele tinha outras qualidades que extrapolavam o domínio da norma culta. Gostava de vinhos como o dono do conglomerado, consorciado a um espírito de liderança que o tornaria, em breve, chefe de redação de uma equipe multitalentosa.

Isso ocorreu há quase 50 anos — se ocorreu! De lá para cá, os três verbos permanecem intactos, ainda que aqui e ali algum estudioso ou redator adote forma divergente da mainstream (corrente dominante). Vamos lá:

  1. “A supressão dos direitos fundamentais #implica em animalização do homem.”

Implicar possui várias regências, entre estas i) a transitividade direta (sem proposição),ii) a transitividade indireta (com preposição) e iii) a transitividade direta e indireta, também conhecida como bitransitividade.

Transitividade direta (sem proposição): trazer como consequência; envolver, importar, acarretar:

A supressão dos direitos fundamentais implica animalização do homem.

A aprovação do parecer substitutivo implica a rejeição do parecer original.

Sua demissão da empresa implicou contenção severa de gastos.

Transitividade indireta (com preposição): demonstrar antipatia ou prevenção contra; mostrar-se impaciente; antipatizar, hostilizar:

Intolerante, implicava com todos aqueles que não professavam sua fé.

Implicou com o vestido da namorida.

Os caminhoneiros implicaram, com muita razão, com as altas taxas de pedágio.

Transitividade direta e indireta (bitransitividade): comprometer, envolver, embaraçar:

Implicaram-no em crimes de peculato, extorsão e formação de quadrilha.

O seu vacilante depoimento implicou-o na Operação Lava-Jato.

Os vereadores implicaram-se em um escândalo jamais visto na cidade.

 

  1. “Sabia que eu #namorei com a Fabíola?”

Quem namora, namora alguém. A transitividade é direta, sem necessidade de preposição para que ocorra a passagem ao termo que se segue.  “Namorar com” significa “namorar com alguém uma terceira pessoa” (“Namorei com a Carla a Fabíola”, ou seja, eu estava namorando a Fabíola com a Carla de vela). Acertemos, pois:

Sabia que eu namorei a Fabíola?

Quem namorou a Fernanda quando ela morava no Gama?

Eduardo namorava Mônica na música da Legião Urbana.

Toparia namorar um trans?

 

  1. “No futebol, sou extremamente patriota. Prefiro #mais o Flamengo ou o Corinthians #do que qualquer time estrangeiro”

Não se prefere algo ou alguém “mais do que” outro algo ou alguém. Prefere-se, simplesmente, algo ou alguém a outro algo ou alguém. A transitividade indireta pede apenas a preposição “a”, mais nada. Vejamos:

No futebol, sou extremamente patriota. Prefiro o Flamengo ou o Corinthians a qualquer time estrangeiro.

Prefiro maçã a pera.

Prefiro a maçã à pera.

O ditador norte-coreano Kim Jong-un prefere filmes da Disney a produções locais.

 

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